Que o acaso tenha trazido você até mim.

Jogos de Glória.

Meus sonhos têm a palidez secreta
de uma pequena morte,
um transe induzido,
um coma inventado.
Avanço sobre pratos de comida como quem
estivesse diante de um prazer indizível,
inenarrável,
mas incontrolavelmente oferecido.
Sou uma mulher diferente quando
olho-me no espelho.
Estou contando vantagem sobre meus
desesperos,
contando os homens de terno, farda,
fraldas e bermudas
que atravessam livres
o beiral de minha porta.
E divido
centavo por centavo do dinheiro dessa aposta
que perdi;
as baratas me cobram. Devo tudo à elas.
Estou na sarjeta por ter sonhado com alturas.
Cobras voadoras
que espancam todas as chances
de um dia eu me tornar bem-vinda.

Mentiras febris. Mas necessárias. Provocação pura.

Na cova na qual
já está jazendo
seu febril corpo,
já tem outro homem
dormindo em cima.
Talvez comigo,
me dando frutos
de uva madura na boca.
Estou te velando
por debaixo de minhas saias
nas quais está
repousada
outra grossa mão masculina.

Mal você saiu de cena
outro cobriu sua fala.
Ninguém mandou dormir na cochia
enquanto era encenada
toda a minha tragédia.
Mal você se recuperou do tombo,
meu luto por você já te enterrava.

Cova rasa essa na qual você repousa,
tão aflitivamente...

Narrativa

Passei a noite toda de sutiã negro modelo meia-taça, saia também preta, justa, um copo de cerveja em uma das mãos, um de st. remy na outra e muito cigarro flutuando no espaço.

Minha garganta doía, o peito chiava, mas eu estava trajada com minha exarpe vermelha de bolinhas brancas; que outro mal pior poderia me acontecer?

Nesta noite eu aprendia a apreciar o dom de se estar sozinha. Mas eu tenho pressa. E assim eu tenho chamado as feras para o combate. Gregos e troianos torcendo para que eu caia e eu aqui, de pé em frente à torcida, levantando meus braços apenas o suficiente para dizer:
- Calma gente! É um expurgo apenas porque estou... Enfim. Fui traída de novo.

Acendi mais um cigarro. O peito doendo, a voz falhando, mas as músicas não paravam de rodar no meu aparelho de som falido; que outro mal pior poderia me acontecer?

Uma mulher bonita sorria para mim do outro lado do quarto e eu percebi. Era eu mesma, disfarçada de lésbica, tentando me convencer de que os homens não prestam. Simplesmente não. Mas eu ainda argumentava, e minha retórica agora toda servia para provar que, nesta noite específica, o melhor era mesmo estar sozinha...

... nada de colo de mãe, abraço de namorado ou apoio de gente estranha. O melhor daquela noite era justamente nadar, de braços abertos, rumo à eternidade daquele instante.

Se ali eu morresse, tudo estaria certo então.

No entanto, contive meus ímpetos de ir para a rua e soltar um gás tóxico improvável qualquer. Contentei-me em matar pessoas apenas telepaticamente. Apaticamente. Como a lésbica que em mim, olhava meus seios expostos do outro lado da esquina.

Mas não. Essa boite eu tinha meu sutiã preto e minha maldade contra mim mesma proliferando a todo vapor; que outro mal pior poderia me acontecer?

Ainda não sei como terminei essa noite. Descobri somente que restos mortais velados por muito tempo soltam cheiros ruins demasiadamente. Hora de rasgar essas mortalhas e jogar conversas fora. De que adiantaria lembrar das marcas que suas palavras deixaram?

Melhor mesmo aceitar que seu telefone desligado é a prova irrefutável de que se cortar não só não quer dizer nada como pode mesmo não dar certo.