Passei a noite toda de sutiã negro modelo meia-taça, saia também preta, justa, um copo de cerveja em uma das mãos, um de st. remy na outra e muito cigarro flutuando no espaço.
Minha garganta doía, o peito chiava, mas eu estava trajada com minha exarpe vermelha de bolinhas brancas; que outro mal pior poderia me acontecer?
Nesta noite eu aprendia a apreciar o dom de se estar sozinha. Mas eu tenho pressa. E assim eu tenho chamado as feras para o combate. Gregos e troianos torcendo para que eu caia e eu aqui, de pé em frente à torcida, levantando meus braços apenas o suficiente para dizer:
- Calma gente! É um expurgo apenas porque estou... Enfim. Fui traída de novo.
Acendi mais um cigarro. O peito doendo, a voz falhando, mas as músicas não paravam de rodar no meu aparelho de som falido; que outro mal pior poderia me acontecer?
Uma mulher bonita sorria para mim do outro lado do quarto e eu percebi. Era eu mesma, disfarçada de lésbica, tentando me convencer de que os homens não prestam. Simplesmente não. Mas eu ainda argumentava, e minha retórica agora toda servia para provar que, nesta noite específica, o melhor era mesmo estar sozinha...
... nada de colo de mãe, abraço de namorado ou apoio de gente estranha. O melhor daquela noite era justamente nadar, de braços abertos, rumo à eternidade daquele instante.
Se ali eu morresse, tudo estaria certo então.
No entanto, contive meus ímpetos de ir para a rua e soltar um gás tóxico improvável qualquer. Contentei-me em matar pessoas apenas telepaticamente. Apaticamente. Como a lésbica que em mim, olhava meus seios expostos do outro lado da esquina.
Mas não. Essa boite eu tinha meu sutiã preto e minha maldade contra mim mesma proliferando a todo vapor; que outro mal pior poderia me acontecer?
Ainda não sei como terminei essa noite. Descobri somente que restos mortais velados por muito tempo soltam cheiros ruins demasiadamente. Hora de rasgar essas mortalhas e jogar conversas fora. De que adiantaria lembrar das marcas que suas palavras deixaram?
Melhor mesmo aceitar que seu telefone desligado é a prova irrefutável de que se cortar não só não quer dizer nada como pode mesmo não dar certo.
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Um comentário:
olá lú,
seu eu poético é preciso! expurga uma angustia que creio ser de muitos outros ["eu's poéticos"].quando eu puder retorno para fazer novas leituras! bjos
eric renan
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